Enquanto o Brasil faz retornos na contramão, o mundo segue firme rumo à adoção dos biocombustíveis

por Erasmo Carlos Battistella

No Brasil, nos deparamos com decisões que sinalizam um claro retrocesso à nossa Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), com a redução da mistura mínima de biodiesel para 10% (B10, quando deveria ser B13). Ao mesmo tempo, observamos manifestação de entidades e associações que defendem a manutenção do direito de poluir mais com diesel fóssil.

É no noticiário internacional que encontro as boas novas que confirmam que a solução para o futuro verde passa pela adoção dos biocombustíveis.

Começamos com uma nova lei da Califórnia, Estados Unidos, visando à redução de emissão de dióxido de carbono estabeleceu que caminhões e vans comerciais abandonem o uso de diesel até 2045

Antecipando essa meta, levantamento da California Air Resources Board (Carb) indica que combustíveis como o diesel renovável e o biodiesel estão, de fato, proporcionando as melhores reduções nas fontes de emissões de gases de efeito estufa (GEE) relacionadas ao transporte em relação ao potencial dos veículos elétricos (Leia mais no artigo “A matemática da Califórnia mostra a combustão interna superando a eletricidade nas emissões”, publicado no boletim informativo CCJ voltado a profissionais de transporte rodoviário).

Leia mais detalhes sobre o avanço dos biocombustíveis no artigo “Biodiesel avança nos Estados Unidos: um bom exemplo para o Brasil”.

Enquanto entidades no Brasil tentam descredenciar nosso patrimônio nacional, fóruns internacionais de associações similares avançam em suas conclusões de que o biodiesel se destaca como uma solução para a mudança climática com baixo teor de carbono. Os líderes da indústria da Renewable Energy Group e do National Biodiesel Board destacaram a oportunidade significativa para os biocombustíveis em um futuro com restrição de carbono em comparação com a eletrificação e outras abordagens.

Em sessão virtual de 13 de abril de 2021 do Diesel Technology Forum (associação educacional que representa fabricantes de motores e equipamentos a diesel, fornecedores e interesses de combustíveis), os participantes concordaram que o biodiesel é de baixo custo, baixo carbono, mas alto impacto na redução dos gases de efeito estufa.

É uma solução pronta para combater as mudanças climáticas.

Ezra Finkin, moderador e organizador da sessão, não me deixa falando sozinho: “Hoje, motores a diesel mais eficientes, combinados com combustíveis diesel de base biológica de muito baixo carbono, como diesel renovável e biodiesel, podem fazer muito para reduzir as emissões imediatamente”, disse.

Para aqueles que acreditam que a eletrificação é a única estratégia para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, esta sessão forneceu novas perspectivas importantes sobre como pensar sobre cronogramas de redução de gases de efeito estufa e a ampla adequação de combustíveis diesel de base biológica para serem usados imediatamente em amplos setores da economia.

E, por meio da discussão de estudos de caso de frotas públicas e privadas na Califórnia, o debate no fórum demonstrou o sucesso comprovado do biodiesel em aplicações no mundo real.

Os veículos elétricos também têm sua eficiência em relação à emissão de gases de efeito sob análise. De acordo com a US Energy Information Administration, cerca de 60% da energia gerada nos Estados Unidos no ano passado foi derivada de fontes de combustível fóssil como carvão, petróleo, gás natural e outros gases. Vinte por cento foram provenientes de fontes nucleares e os 20% restantes de fontes renováveis.

Quanto mais se caminha na adoção de caminhões elétricos, mais as emissões dessas usinas aumentam. No final das contas, não há ganho em redução das emissões de gases de efeito estufa, mas o conceito de análise e comparação de medição de emissões e dimensionamento de pegadas de carbono do poço às rodas não é uma pauta na discussão atual na opinião pública, que leva à adoção de políticas de estímulo aos veículos elétricos (sugiro a leitura do meu artigo “A solução dos biocombustíveis avançados em contraponto ao uso dos carros elétricos”).

Os biocombustíveis têm uma boa pontuação em seu perfil do poço às rodas, porque são produzidos a partir de matéria vegetal e animal. Como já disse aqui em outro artigo (“Você já pensou em ter energia solar líquida no tanque de seu carro?”), Colin Huwyler, CEO da a Optimus Technologies, os biocombustíveis são uma forma de energia solar, já que as plantas de soja usadas para produzir o combustível crescem por meio da fotossíntese que que depende do sol.

A CARB estima que tenha crescido de cerca de 16 milhões de galões o uso de biodiesel em 2011 para quase 1 bilhão de galões em 2020.

O que parece ser uma novidade no Brasil já é uma evidência nos Estados Unidos. De acordo com pesquisa encomendada pelo South Coast Air Quality Management District [confira aqui o estudo completo), o biodiesel são capazes de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em mais de 80%.

Com uma frota de mais de 1 milhão de veículos comerciais a diesel nas estradas na Califórnia, há uma oportunidade ainda maior de benefícios climáticos adicionais de curto prazo com a absorção de combustível diesel de base biológica.

O recado que se ouve nos principais fóruns de discussão internacionais é de que o biodiesel é uma “solução comprovada disponível hoje para reduzir os gases de efeito estufa é expandir o uso de biocombustíveis de baixo carbono em todos os motores e equipamentos a diesel – novos e existentes”.

Como o diesel é o principal motor de setores-chave da economia, o uso de combustíveis de baixo carbono pode mudar o jogo para reduzir as emissões dos setores de transporte e equipamentos difíceis de descarbonizar.

No Brasil, os investimentos na produção de biodiesel estão se expandindo rapidamente, o que definirá uma estratégia de maior acesso a combustíveis de baixo carbono em todo o país. Há uma capacidade instalada que permite atender até B18 hoje, e B20 até 2028, oferecendo um produto que tem um dos parâmetros de qualidade mais exigentes do mundo.

Estamos às vésperas de aprovar a regulamentação dos biocombustíveis avançados, o Diesel Verde, que trará seguramente novos investimentos para a produção de HVO e SPK (bioquerosene de aviação), assim como estamos fazendo no Paraguai com a biorrefinaria Omega Green, com início de produção previsto para 2024.

Toda essa estratégia permitirá a mais governos no mundo e a frotas privadas terem as opções viáveis para atender a desafio climático de longo prazo.

Que estas constatações façam eco nos ouvidos de setores brasileiros que ainda preferem seguir na contramão de tudo o que o mundo já reconheceu para o futuro sustentável.

O setor tem externalidade positivas ambientais, sociais e macroeconômicas sobre o diesel fóssil. O que marcou toda essa evolução até aqui foi o diálogo. E aqui reforço esse compromisso de desenvolvimento conjunto, sem batalhas baseadas em falsas premissas, para o benefício da economia, mas, em especial, de toda a sociedade brasileira.

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